Almanaque · Antropologia de Estante

O Framework dos 7 Passos Para Lugar Nenhum

Como o empresário moderno aprendeu a comprar absolvição em até doze vezes sem juros

A biblioteca de um homem revela menos o que ele sabe e mais o que ele teme não saber, e é por isso que a estante do empresário moderno merece estudo antropológico: quarenta títulos sobre liderança, doze sobre hábitos, oito sobre negociação, todos de capa dura e todos com a lombada impecável a partir do terço inicial (os livros de gestão, como as academias em janeiro, são frequentados com fervor até o primeiro obstáculo sério, que costuma ser o capítulo três).

Conheço bem o dono dessa estante, ou melhor, conheci-o muitas vezes, com rostos diferentes e os mesmos hábitos: ele fotografa a página grifada para postar nos stories, ouve audiolivro em velocidade dupla (porque prefere a sabedoria como prefere o café, concentrada) e cita Jim Collins de memória com a fluência de quem decorou o trailer sem assistir ao filme, além de saber desenhar o círculo dourado num guardanapo e de usar a palavra flywheel em reuniões nas quais nada gira.

Na parede do escritório dele, emoldurados como diplomas de medicina, estão os certificados da imersão de liderança exponencial, do mastermind de alta performance, do intensivo de gestão ágil e do retiro de mentalidade empreendedora, enquanto numa gaveta dormem os crachás de todos os congressos dos últimos cinco anos, guardados com o carinho de quem coleciona medalhas de uma guerra que nunca aconteceu.

Na empresa, enquanto isso, o cunhado que não entrega segue no cargo desde 2021, protegido por um almoço de domingo, e a tabela de preços não é reajustada há três anos, porque aumentar preço dá medo e o medo não aparece em nenhum canvas.

Já a conversa com o sócio (aquela, a que ele ensaia sozinho no carro, no trajeto entre o escritório e a casa) continua marcada para um futuro sem data, como as obras públicas, embora ele saiba exatamente o que precisa fazer (ele sabe até em inglês).

De tanto observar essa figura em cafés, em eventos e ocasionalmente no espelho (não me julgue; eu também tenho uma gaveta), consegui enfim catalogar o método que ela segue, um método que ninguém vende com esse nome, mas que todos vendem, e que por isso registro aqui, gratuitamente e com a devida documentação: o Framework dos 7 Passos Para Lugar Nenhum.

O primeiro passo é o diagnóstico, que chega pago, extenso, encadernado em espiral e repleto de gráficos de radar, com a função técnica precisa de confirmar em quarenta páginas aquilo que o cliente já sabia no banho.

É um gênero literário curioso, o diagnóstico empresarial, porque o problema identificado é sempre “processos” ou “pessoas” e nunca o dono (você já viu um diagnóstico apontar para quem assina o cheque? pois é; nem eu), de modo que o empresário recebe o relatório, reconhece cada linha, sente o conforto morno de ver seus pressentimentos validados por uma consultoria, e arquiva.

O segundo passo é a imersão, dois dias num hotel de estrada com coffee break de qualidade duvidosa, dinâmicas envolvendo barbante e vendas nos olhos, e uma palestra de encerramento ao som de trilha épica, com direito a choro coletivo autorizado.

O participante sai transformado, mas a transformação, medida em condições reais, tem meia-vida que se estende até a segunda-feira seguinte, quando o boleto do fornecedor e o cunhado o aguardam exatamente onde os deixou.

O terceiro é o plano: metas trimestrais numa planilha colorida, OKRs copiados do Google (a empresa tem seis funcionários, mas sonhar é de graça) e um canvas impresso em A0, pendurado na parede da sala de reunião, onde envelhecerá com a dignidade de um mapa de tesouro que ninguém pretende escavar.

O quarto é a mentoria em grupo, invenção comercialmente admirável em que dez pessoas pagam, cada uma, o preço de uma consultoria inteira para assistir o mentor resolver o problema de uma delas, sendo o momento nobre o hot seat, quando o empresário expõe diante da turma o problema que carrega há cinco anos e o mentor o resolve em cinco minutos (a plateia anota, com vigor, a solução de um problema que não é o dela, como quem copia a receita do remédio para a doença do vizinho).

Antes de entrar, é claro, houve um formulário de seleção rigorosíssimo, daqueles que avisam solenemente que o preenchimento não garante a vaga (fique tranquilo, garante).

O quinto é o networking, essa palavra que promete pontes e entrega corredores: no intervalo do almoço, trocam-se cartões e Instagrams entre pessoas que estão, todas, no mesmo passo do mesmo framework, formando um mercado peculiar em que todos os presentes vendem e nenhum compra, o que talvez explique por que os únicos negócios realmente fechados em eventos de networking costumam ser os do palco.

O sexto é o certificado, com cerimônia de encerramento, foto oficial e post de gratidão no LinkedIn, escrito com a emoção genuína de quem confunde a formatura com a obra, e é também a hora do depoimento em vídeo, gravado ali mesmo, na saída do auditório, enquanto a emoção ainda está quente (o entusiasmo, como o café, esfria rápido, e a indústria sabe disso melhor do que ninguém; por isso filma antes do estacionamento).

E o sétimo, o passo decisivo, aquele sem o qual toda a arquitetura desaba, é a matrícula no próximo, um passo que raramente exige esforço de venda, porque costuma ser oferecido do próprio palco do sexto, com desconto exclusivo para quem decidir ali, naquela sala, naquela hora (a urgência, você vai notar, é sempre uma virtude do comprador e nunca uma pressa do vendedor).

A dose anterior já não faz efeito e o organismo pede algo mais forte, então se foi curso, agora é imersão, se foi imersão, mentoria, e se foi mentoria, mastermind, porque há sempre um próximo nível, pela razão simples de que os níveis são fabricados na mesma gráfica que os certificados.

Repare agora na geometria do conjunto: o sétimo passo desemboca no primeiro, o que significa que o framework não é uma escada, e sim um carrossel, engenhoca que produz uma sensação autêntica de movimento e devolve o passageiro exatamente ao ponto de partida, mediante pagamento.

Chesterton observou que o louco não é o homem que perdeu a razão, mas o que perdeu tudo, exceto a razão, e o colecionador de certificados é seu primo corporativo, porque não é um homem sem método, e sim um homem que perdeu tudo, exceto o método.

E há que se reconhecer, no Framework dos 7 Passos, uma honestidade estrutural rara no mercado, já que, de todas as promessas da indústria, é a única que se cumpre integralmente: não leva a lugar nenhum, e leva com processo, cronograma e suporte via grupo de WhatsApp.

A Idade Média, que era menos ingênua do que os best-sellers a pintam, já havia desenvolvido esse produto com outra embalagem, e chamava-o de indulgência: um documento que absolvia o pecador sem o inconveniente de exigir que ele mudasse de vida.

Nós rimos disso nas aulas de história e depois emolduramos certificados na parede do escritório, porque é exatamente isso que o certificado é (uma indulgência corporativa, com QR code de validação), de modo que o empresário não compra o curso para aprender, e sim para ser absolvido, por mais um trimestre, do pecado da inação. O canudo é o recibo da penitência e, como toda indulgência, não corrige a conduta: apenas alivia a consciência na medida exata para que a conduta continue.

Não se trata, notem, de um golpe, porque golpe pressupõe vítima e aqui não há nenhuma: a indústria sabe perfeitamente o que vende, e o cliente sabe, num andar menos iluminado da própria consciência, o que compra.

O produto real não é conhecimento (conhecimento existe de sobra, grátis, nas bibliotecas públicas e nos livros que ele já tem em casa, intactos a partir do capítulo três), e sim o alívio, a sensação de progresso sem o incômodo do progresso.

O empresário compra a nova imersão pelo mesmo motivo pelo qual comprou a esteira que hoje serve de cabide, não para usar, mas para silenciar, por algumas semanas, a voz que diz que deveria, e nesse contrato não há vítima nem vilão, apenas dois cúmplices e um boleto.

Sêneca reclamava, há dois mil anos, dos homens que passavam a vida inteira se preparando para viver, e, se tivesse conhecido o mercado brasileiro de mentorias, teria escrito com menos paciência e talvez em letras maiores.

E que fique registrado, antes que me acusem de pregar a ignorância: não há nada de errado em estudar, e há livros que mudam empresas, em geral os que cobram caro em desconforto e barato em dinheiro, porque o teste de um bom livro de gestão não é a lista de mais vendidos em que aparece, mas a pergunta que ele obriga o leitor a responder sobre a própria empresa (se você terminou a leitura mais confortável do que a começou, não leu um livro; tomou um ansiolítico com ISBN).

Acontece que as coisas que destravam um negócio continuam sendo as de sempre, e nenhuma delas vem com módulo bônus: demitir quem precisa ser demitido, inclusive quando almoça na sua casa aos domingos, reajustar o preço e aguentar, sem recuar, o silêncio do cliente do outro lado da linha, sentar diante do sócio e dizer, com a porta fechada, a frase que vem sendo ensaiada no carro há um ano e meio.

Para nada disso existe formatura, crachá, cerimônia ou foto, e o mercado não celebra essas decisões pela mesma razão pela qual não consegue vendê-las: é impossível cobrar por aquilo que só o próprio sujeito pode executar.

Da última vez que vi o dono da estante, ele estava na fila do credenciamento de um congresso, crachá novo no pescoço, contando a alguém, com um brilho sincero nos olhos, sobre a próxima imersão, que dessa vez seria diferente, porque o mentor era outro. Quando perguntei o que tinha achado da anterior, ele disse que tinha sido transformadora, e eu preferi não perguntar o que havia mudado.

Voltei para casa pensando na estante dele, que a essa altura já deve ter ganhado mais uma prateleira, e me ocorreu que a Igreja medieval, com todos os seus defeitos, ao menos nunca prometeu que a indulgência substituía a penitência: o documento aliviava o passado, mas a virtude continuava sendo assunto do freguês, enquanto a nossa versão é menos honesta e mais bem diagramada.

Porque assim como indulgência nenhuma transformou um pecador em santo, certificado nenhum transformará um leitor em empresário, já que a santidade, garantem os que entenderam do assunto, não se compra, pratica-se, quase sempre longe das câmeras e sem trilha épica, e a gestão, por um azar terrível de quem vive de vender atalhos, funciona do mesmo jeito.

Enquanto isso, a estante cresce e fica cada vez mais bonita (isso, convenhamos, ninguém pode negar).